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Shenzhen speed: A receita do crescimento chinês

Peter Stewart (@petestew), find out how awesome his photos are at www.peterstewartphotography.com



O modelo de 1978:


A sociedade chinesa viveu tempos difíceis durante sua história. Diante do cenário deixado por Mao Zedong, que não se afastou do governo até falecer em 1976, o povo precisava de uma resposta com urgência.


Com o objetivo promover a reviravolta necessária o sucessor, Deng Xiaoping, passou a trabalhar no projeto de criação de Zonas Econômicas Especiais, rompendo com a rigidez da administração anterior e promovendo melhor qualidade de vida. Até então não era permitido abrir o próprio negócio. Comida e roupas eram distribuídas em troca de cupons expedidos pelo governo de Mao.


Shenzhen foi a primeira e a mais bem-sucedida dentre as Zonas Econômicas Especiais idealizadas durante a administração de Deng Xiaoping. Ela está situada na costa sul do país, propositalmente ao lado de Hong Kong e Macau, às margens do delta do Rio Pérola.


Foi em maio de 1980 que deram início ao projeto de total ressignificação daquele vilarejo através de maior independência do governo central, da construção de infraestrutura voltada à exportação e abertura do mercado à investimento estrangeiro, somada a uma política de difusão de incentivos fiscais.


Com o passar dos anos, atividade pesqueira e os campos de arroz deram lugar ao maior pólo industrial voltado à fabricação e distribuição logística de componentes eletrônicos já visto. Por muito tempo toda essa infraestrutura serviu como meio de redução de custos fomentando a produção de imitações baratas dos eletrônicos projetados por grandes empresas, violando todo tipo de patente ou trademark.


Essa produção de imitações se revelou como uma cultura própria, chamada Shanzhai, e há quem se orgulhe de conseguir produzir o mesmo produto mais rápido e mais barato. Os adeptos a tal cultura consolidaram as bases do dinamismo das linhas de produção chinesas e trouxeram enorme volume de capital ao país. Muitos deles hoje comandam as próprias marcas e não se preocupam em promover disputas legais contra quem fizer imitações daquilo que desenvolveram.


Alguns nem mesmo buscam fazer o registro de patentes, pois afirmam que isto não impedirá que alguém faça engenharia reversa. Outros seguem diretamente à distribuição de seus designs em regime open source. Comum a ambos os grupos é o sentimento de que devem se concentrar em ser melhores que o concorrente, sem perder tempo e dinheiro com formalidades e ações judiciais.


Junto a Beijing, Shanghai e Guanzhou, não é à toa que SZ se tornou um dos quatro pólos de inovação da China. Ela é conhecida mundialmente como a capital mundial do hardware e até mesmo aqueles que têm por referência o modelo de inovação americano não negam que Shenzhen é o vale do silício do hardware.


O ambiente de competição frenética leva estes montadores e fabricantes à constante evolução. Foram eles que fizeram Shenzhen ser uma representação do sucesso da China. Atrás de cenários como este, onde massa crítica encontra infraestrutura, mentes inovadoras de todo o mundo tem feito de Shenzhen sua casa, assim como já fizeram as gigantes da tecnologia Tencent, Huawei e ZTE, projetando o futuro a partir de lá.



Problemas escaláveis:


Os próprios idealizadores do projeto não previam crescimento econômico como este. Ao longo dos anos, tanta prosperidade chamou atenção das mentes que almejavam deixar para traz as dificuldades que viveram sob o governo de Mao Zedong.


A população, que não muito tempo atrás não ultrapassava os 30.000 camponeses, hoje nem mesmo pode ser aferida com precisão. O volume de 10 ou 12 milhões é uma mera aproximação de quantos habitantes vivem em regiões centrais e serve apenas para fins estatísticos.


Tendo em vista o constante estado de reconstrução da cidade, desde o início da implantação do plano de abertura econômica pessoas são constantemente remanejadas com direção às zonas mais afastadas e menos organizadas. Apenas 30% dos habitantes são residentes permanentes e o crescimento acelerado levou à formação de complexos residenciais de altíssima densidade, como o de Baishizhou, onde mais de 150 mil pessoas viveram juntas em uma área pouco menor que 0.6 quilômetros quadrados, até ser demolido para revitalização em 2016.


Considerando que até os próprios chineses precisam pedir autorização ao governo local para residir em Shenzhen, garantir abrigo para tantas pessoas se torna uma tarefa árdua. Ainda assim, a densidade média da cidade é inferior à vizinha Hong Kong.



The chinesse dream:


Por quase 40 anos o governo chinês fomentou uma competição frenética entre as cidades mais economicamente desenvolvidas. Quando comparada aos outros grandes pólos de inovação chineses, Shenzhen é constantemente atacada por uma suposta falta de identidade própria. Projetada para ser a primeira conexão com o mundo externo e receber talentos de todos os cantos, ela realmente não conta com o mesmo histórico milenar de suas irmãs, mas tem sido o laboratório do sonho chinês.


Anúncios recentes revelaram que a competição hostil entre cidades chinesas dará lugar à construção de um ambiente de promoção à cooperação. Assim, Xi Jinping espera assegurar a manutenção do crescimento econômico em escala exponencial, sem violar o Acordo de Paris.


Com este fim, já foi revelado que a administração pública pretende unificar regiões inteiras. Prevendo GDP de 4.62 trilhão de dólares em 2030, a primeira foi nomeada Greater Bay Area. Nela viverão 66 milhões de habitantes distribuídos em 11 cidades vizinhas, dentre elas Shenzhen, Macau e Hong Kong.


Não se deve negar que muito ainda se ouvirá falar do Vale do Silício, região sul da baia de São Francisco, como se ele fosse a melhor referência de ecossistema. Estou ansioso para saber quais as soluções pretendem implementar para não perder (recuperar, na minha opinião) tal posição.




Referências:


  1. Shenzhen: The Silicon Valley of Hardware (Full Documentary) | Future Cities | WIRED


  2. The People's Republic of The Future 


  3. Shenzhen: The Migrant Experiment 


  4. https://g1.globo.com/economia/noticia/2019/08/16/guerra-comercial-entenda-a-piora-das-tensoes-entre-china-e-eua-e-as-incertezas-para-a-economia-mundial.ghtml


  5. https://oglobo.globo.com/economia/a-cronologia-da-guerra-comercial-entre-estados-unidos-china-23901049


  6. https://www.scmp.com/magazines/post-magazine/long-reads/article/2023255/last-days-shenzhens-great-urban-village


  7. https://foreignpolicy.com/2016/09/16/china-demolition-economy-the-twilight-of-shenzhens-great-urban-village-baishizhou/


  8. https://www.publico.pt/2019/09/02/mundo/noticia/iniciativa-chinesa-faixa-rota-minar-acordo-paris-1885187


  9. https://www.euronews.com/2019/11/05/emmanuel-macron-and-xi-jinping-to-agree-irreversibility-of-paris-climate-agreement

 
 
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